Archive for the dores e oratorios Category

Previdência

Posted in dores e oratorios, poesia on março 29, 2011 by Alan

Mesmo que ainda sejam mãos

Agradecem.

Mesmo esquecidas

Ainda prontas.

Pelo árduo trabalho, curvas, tortas e velhas,

Porém, acolchoadas com a sabedoria dos tempos.

Calos endurecidos pelas memórias velhas,

Brilham ao som do terço de perolas rotas.

Memórias novas são esquecidas

Guardando o rosto dos ingratos e imaturos governantes.

Feliz deles que não envelhecem nunca.

Apenas esquecem…

Um dia virá o tempo encharcado  de ira

Que em roucas mãos trarão novos moços.

Tricotilomania

Posted in dores e oratorios on novembro 20, 2010 by Alan

Obs. Tricotilomania (mania de arrancar cabelos)

Depoimento da paciente “D” em novembro/2010

 

“Sempre fui uma filha desprezada, minha mãe tem o temperamento muito forte e dominador, aos 17 anos já tinha minha filha, aos 18 meu filho e assim casei com o pai das crianças.

… meu marido é alcoólatra, me maltrata (mostra cicatrizes nos braços).

Há 2 anos atrás, tentei ficar com outra pessoa, foi uma tentativa, não deu certo, voltei para casa de meus pais, grávida, meu ódio era muito grande e não consegui levar a gravidez para frente. Foi um período que não gosto de lembrar… (chora).

Voltei com meu marido e desde então ele joga na minha cara, humilha e machuca. Daí surgiu o hábito de arrancar meu cabelo, (mostra a região do couro cabeludo com boa parte sem pelos). Tenho vergonha de estar assim, então agora arranco os pelos pubianos, assim ninguém nota.

Para que eu possa sentir felicidade ele precisaria parar de beber (levanta os olhos e fica pensativa).

A vida é cheia de maldades, e não tem sido boa comigo. Tentei suicídio por quatro vezes, três vezes tomei muitos comprimidos e a terceira tente me enforcar. Nem para isso eu sirvo.

Sou gorda e meu marido não me quer mais. Tento suportar os dias e noites que respiro… (não quero falar mais).

 

situação

Posted in angel delirius, artes do cotidiano, dores e oratorios on novembro 16, 2010 by Alan

Da janela do quarto a chuva derrama a lama, no berço alguém que já chorou adormeceu e calou. Vejo o cotidiano listrado da veneziana empoeirada desconheço o que sou porque algo transgrediu meu corpo. Não quero conversa nem amigos, não quero dor. A chama apagou no copo, cheira fuligem. Os órgãos reclamam o inóspito gosto da luz.  Olho as paredes do quarto, idílica clareira de cipós entrelaçados como no pensamento, sigo a força vital, do nada surge o desgosto, adormeço, acordo e me empanturro.

O estomago dói , o corpo dói a alma está partida, vejo claramente a dualidade uma agacha sobre o tapete azul e a outra transborda o que se foi, levanta e vai trabalhar.

Nossa Culpa

Posted in artes do cotidiano, comentário, dores e oratorios on março 22, 2009 by Alan

culpa

A defesa da ecologia, o desenvolvimento sustentável e o investimento na área social são temas do   marketing comercial de alguns grupos empresariais e marcas famosas de domínio nacional e internacional.

O aumento das vendas é garantido pelos economistas, virou  sinônimo de elegância e simpatia,  marcas de cosméticos, empresas de medicamentos e outras  que investem parte dos seus lucros na alfabetização, na cultura dos adolescentes pobres, no   combate a fome do terceiro mundo e no desmatamento da Amazônia.

Os beneficiários desses investimentos são aqueles paises, como o Brasil, onde  ainda imperam a pobreza, a ignorância, a falta de investimentos descentes na área da saúde e da educação e cultura.

Isso toca a alma de nós humanos e de certa forma,  tira de nossas costas, a responsabilidade que temos para aqueles que não possuem o mínimo  necessário, ou ameniza nossa culpa, por desfrutarmos inclusive do supérfluo.

Ilusão, engodo da mídia comercial, muitas dessas empresas investem o mínimo dos seus lucros no desenvolvimento humano e recebem rios de dinheiro as custas da poluição ambiental que é patrimônio da humanidade, e ainda  gozam das benesses do financiamento do dinheiro público para seus investimentos,ou seja, os famintos e desnutridos patrocinam os grandes salários dos seus próprios carrascos executivos.

Nós somos responsáveis por tudo isso.

Somos culpados quando colocamos no poder político da Nação, criaturas ignóbeis para dirigir e manipular as leis e os recursos públicos, que beneficiam poucos e patrocinam a vergonha nacional.

Um pequeno exemplo dessa vergonha aconteceu em  janeiro deste ano de 2009, o senado brasileiro estava em férias, salas e gabinetes totalmente vazios, mesmo assim pagou  horas extras para funcionários fantasmas, foram 6,2 milhões de reais gastos.  Cifra que daria para fornecer 18.594 cestas básicas para os famintos, ou financiar milhares de  livros didáticos para nossas crianças.

Enquanto vemos as estatísticas da mortalidade infantil, do empobrecimento da nação, dos pequenos índices atingidos pela educação, enquanto  aplaudimos a esmola da iniciativa privada, bebemos nossa amarga cerveja no final de semana e brindamos por  dias melhores.

apenas um causo

Posted in dores e oratorios with tags on dezembro 14, 2008 by Alan

vitrola1

Chico do mato viveu no século passado, lá no canto das Minas Gerais, criatura polêmica, era admirado por uns e odiado por outros. Chico adorava comer carne de porco, nunca de boi, dizia que o boi era de Deus, morava com a mulher no bairro das Perobas, lugar distante da cidade e onde o progresso ainda não havia chegado, fora o trabalho o que mais gostava de fazer era ouvir sua vitrola. Eles não tinham filhos, diziam que Maria era maninha e não podia criar. Nos domingos lavava o pé com sabão de cinza, cortava as unhas e navalhava as barbas e o bigode, colocava água de cheiro, ia até o armário da cozinha, pegava de traz da panela de ferro de três pés o litro da cachaça de salinas, coisa preciosa que tinha ganhado de um antigo patrão. Tomava duas boas talagadas e guardava a preciosidade, colocava o disco bolachão do Cascatinha e Inhana e começava a sonhar. Sonhava com dias de chuva, de lavoura verde, pés carregados de café e o pasto cheio de gado. Só acordava quando a mulher o cutucava para o almoço. Em uma segunda-feira, era verão de 67, Chico acordou de mau jeito, 5 horas da manhã e o galo não havia cantado, pulou da cama de palha e foi lavar o rosto na bica do terreiro, passou pela cozinha, o fogão a lenha estava apagado, em 23 anos de casado nunca tinha acontecido tal pirraça, procurou pela mulher por 7 dias e 7 noites, percorreu toda redondeza, ninguém tinha visto nem rasto. A desgraçada havia levado todas as galinhas, dois porcos castrados, o cavalo e a égua, três garrotes e o que tinha de mantimentos, só ficou o cachorro vital. Chico ficou desolado, não entendia o feito, Maria era mulher de respeito, nunca queria ir à cidade, era devota de São Benedito, nunca falava alto. Aquilo só podia ser coisa do diabo. Foram anos difíceis, sem a mulher para ajudar na lida, parecia que a diaba tinha levado toda a sorte, teve chuva de vento e geada, as vacas que sobraram não pariram, até a queimada do vizinho entrou pelas terras lambendo quase todo o cafezal. Chico nunca mais foi à cidade, vivia apenas com a companhia do cachorro vital, tinha vergonha de olhar nas pessoas, não vendia nem comprava nada. Foi num dia de domingo santo que o compadre Bernardino entrou na cozinha de Chico, bateu nas suas costelas magras e disse “Chico, eu sei onde a Maria está”. O sofrido homem foi achar a mulher a três cidades adiante, ela trabalhava de lavadeira em um bordel e tinha um amigado preto de nome Benedito. Só depois de ter enfiado a faca no cabra até o cabo, lembrou que era o vendedor de santo que passava na roça. Maria ficou amarrada vendo o Chico matar o preto, de um só golpe cortou o pescoço da mulher. Chico foi preso dois dias depois, sentado na cadeira de sua cozinha, ainda sujo de sangue. O cachorro vital acompanhou seu dono ate a cadeia e lá na porta ficou ate sair seu caixão. Contam que até hoje a meninada da escola, leva a sobra da merenda para um velho cão, de nome vital, no portão do cemitério de uma pequena cidade das Minas Gerais.

Jardim do edem

Posted in dores e oratorios on novembro 14, 2008 by Alan

anjo

Palavras eram ditas, gestos eram declinados, ela não sentia, não ouvia, apenas olhava como se fossem apenas gestos, apenas palavras.

Alguma pessoa uma vez disse “cuidado com quem muito sofre, o sofrimento anestesia a alma”.

docilmente alguém falava que o tempo é o melhor remédio para todos os males. Com os olhos perdidos no teto, lembrava da maçã vermelha nas mãos sujas da menina marina. As unhas pretas de terra seguravam a fruta com tanta força… Levava aos dentes pequeninos, lascavam, mascavam, degustavam com tanta fúria e gozo que não existia nada no mundo que pudesse tolher aquela cena. Ela tinha olhos de girassol, ela tinha boca de beijo.

Por um momento o tempo parou, gargalhadas foram ouvidas, os olhos parados ainda continuavam no teto, reprovação e espanto,  o som do riso deu lugar a um berro lancinante que varria o silêncio da alcova.

Marina voou, voou… nunca mais voltou… quem encontrar é favor me avisar … ela é toda amarelinha …  o meu pobre passarinho.

retornável e descartável

Posted in angel delirius, artes do cotidiano, dores e oratorios, sei lá entende with tags on maio 30, 2008 by Alan

retornar um dia seria um erro.

retornar é voltar e sentir de novo

o cheiro da flor, o travo da jabuticaba verde

 o mistério de caçar casulo

andar descalço no quintal de pedra

e sentir a dor da picada de abelha no pé

retornar  é ressurreição

é restauração de coisas que foram ruins

das pancadas na cabeça, das migalhas da sua mesa.

retornar é sentir sede e a garganta seca

é se perder até não poder

é suar de  tesão no meio do bambuzal.

retornar é voltar a ter medo

de cá do muro

ornado da cruel tortura  

da  idade infame.

retornar é ouvir o eco do  berro

do xingo

dos meninos da escola.

retornar é arrancar a ruga

é não querer voltar nunca.