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Síndrome de Burnout

Posted in angel delirius, comentário, texto on junho 23, 2011 by Alan

A paciente H foi atendida no CAPS com quadro de depressão, stress e idéias de auto-extermínio, baixo autoestima, crise repentina de choro, irritabilidade exacerbada – Hipótese diagnóstica Síndrome de Burnout.

Faxineira, compulsiva com a limpeza do ambiente de trabalho, acha que somente o seu trabalho é perfeito, age com cinismo quando fala dos companheiros de trabalho. Apresenta insônia, ansiedade e relata estar sobrecarregada com responsabilidades familiares, sic (assumo problemas de todos, marido, filhos e mãe idosa, no trabalho só eu faço o serviço que precisa ser feito, deixo um pedaço de papel em lugar estratégico para ver no outro dia se a outra faxineira limpou aquele local, ela nunca limpa).

H tentou furar os olhos com uma tesoura, porém não teve coragem, cortou os próprios cabelos de forma violenta e desarmônica. Sic (queria furar os olhos para não ver ninguém, queria não enxergar mais, para não ter o que fazer mais nada).

O fato querer furar os olhos e cortar o cabelo nos traz a idéia de ela querer mudar seus hábitos, descansar da perfeição autodeterminada, não assumir a posição de administradora familiar nem do excesso de zelo no trabalho.

O termo síndrome de Burnout resultou da junção de burn (queima) e out (exterior), caracterizando um tipo de estresse ocupacional, durante o qual a pessoa consome-se física e emocionalmente, resultando em exaustão e em um comportamento agressivo e irritadiço. “Boa parte dos sintomas também é comum em casos de estresse convencional, mas com o acréscimo da desumanização, que se mostra por atitudes negativas e grosseiras em relação às pessoas atendidas no ambiente profissional e que por vezes se estende também aos colegas, amigos e familiares”

Parte dos pacientes que o procuram atendimento médico com depressão são diagnosticados com a síndrome do esgotamento profissional, um tipo de estresse ocupacional e institucional com predileção para profissionais que mantêm uma relação constante e direta com outras pessoas, principalmente quando esta atividade é considerada de ajuda (profissionais da saúde, professores e outros).

O transtorno está registrado no Grupo V da CID-10.

Sintomas:

O sintoma típico da síndrome de burnout é a sensação de esgotamento físico e emocional que se reflete em atitudes negativas, como ausências no trabalho, agressividade, isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, lapsos de memória, ansiedade, depressão, pessimismo, baixa autoestima.

Dor de cabeça, enxaqueca, cansaço, sudorese, palpitação, pressão alta, dores musculares, insônia, crises de asma, distúrbios gastrintestinais são manifestações físicas que podem estar associadas à síndrome.

Observação:

No CAPS em um ano foram atendidos três motoristas de ambulância, duas servidoras de serviços gerais, uma Agente Comunitária de Saúde do quadro funcional municipal da área da saúde, e tudo leva a crer que são portadores da síndrome de burnout.

Esta doença é mais comum que imaginamos, infelizmente é de difícil diagnóstico por parte dos Clínicos, que geralmente tratam as conseqüências sem ver necessariamente a causa.

Almas Fraturadas

Posted in artes do cotidiano, comentário, texto on março 24, 2011 by Alan

MJC, 52 anos e KCC 22 anos, mãe e filha, ambas pacientes do CAPS, diagnosticadas como portadoras de esquizofrenia paranóide.

Vivem obsessivamente juntas, desconheço onde começa ou termina uma e a outra, elas são produto de uma argamassa fundida na fantasia, onde os ingredientes são varias personalidades alienadamente construídas sobre castelos, Guerrilhas ou acontecimentos políticos, evoluindo para delírios persecutórios e de grandeza.

Naquele momento em que os agentes da mistura são antagônicos, elas se tornam agressivas uma com a outra, podendo utilizar de violência física, partindo sempre da filha para mãe e nunca o contrário. Nota-se claramente o sentimento maternal de proteção MJC para com KCC em todas as ocasiões.

MJC chega suada e descontrolada para mim – Acabei de perder a Rede Record e estou em vias de perder também a Rede Globo, fui vitima de uma artimanha do meu irmão Luiz Henrique. (personagem fantasioso). Chora compulsivamente. -Ele faz parte do conselho da Escola onde a KCC estuda, (a filha tremendo de medo faz gestos de concordância com a fala da mãe)

– Conseguiu seqüestrar ela e tive que entregar tudo, ele persegue a menina e ela não pode mais voltar a estudar. Pude contatar Che (referindo ao revolucionário argentino Che Guevara), mas, ele nada pode fazer frente à campanha nazista que se instalou por aqui. Aviões já estão sobrevoando a cidade, médicos nazistas se encontram disfarçados neste local.  São mandantes e capangas dos mandantes todas estas pessoas que você esta vendo no pátio.

A chefa dos capangas é aquela senhora (mostra a enfermeira da unidade), ela pensa que não sei. Agora vou por a boca no mundo, vou ate a radio FM e dizer tudo que sei.

Quando aqui vim morar, fui convidada pelo casal (segundo ela, esse casal que manda na cidade) para dirigir esse município, protegê-los dos mandantes e do crime organizado. Tenho um diário que me foi entregue, nele consta a vida de todos, inclusive a sua.

Não quero mais fazer parte desta trama. Vou almoçar tenho fome, comerei menos hoje em memória das vitimas do Japão. Quero limpar o mundo, me sinto sozinha, sozinha.

A Bailarina

Posted in angel delirius, artes do cotidiano, texto on julho 20, 2008 by Alan

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Em 1881 quando Degas exibiu sua bailarina, foi um escândalo na sociedade parisiense, queriam manda-la pra o museu de zoologia ou de anomalias humanas, consideravam a escultura com olhar obsceno, o formato do rosto foi comparado aos piores bandidos e assassinos daquela época.

O artista levou para dentro dos salões de arte um espécime de olhar atrevido, moldado em cera e composto de  tecido e cabelo humano(materiais inéditos e considerados vulgares), retratava de forma crua,  uma jovem esquálida,  de aproximadamente 14 anos de feições não nobres.

O artista escandalizou quando mostrou de forma realista e nua a hipocrisia  dos poderosos que ao financiavam as artes dos  balés se beneficiavam com a prostituição infantil das bailarinas.

 127 anos depois no sul das Américas, crianças esquálidas, de semblantes morenos, com menos de 14 anos são leiloadas para satisfação do turismo sexual dos europeus. São  pequenas bailarinas e malabaristas de instrumentos torpes, são dançarinas da quadrilha  dos poderosos degenerados.

São nossas pequenas meninas, de olhares atrevidos.

 

tomaz e o ovo

Posted in frescura do anjo, sei lá entende, texto on julho 3, 2008 by Alan

Convite de Morfeu

Posted in angel delirius, dores e oratorios, texto with tags , , on abril 8, 2008 by Alan

O velho e baú

Posted in artes do cotidiano, comentário, texto on janeiro 16, 2008 by Alan

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 Cesário era um velho daqueles que lembram papai noel, o prateado dos cabelos contrastava com a tez avermelhada que era contornada pela barba alva, seus olhos eram dóceis, usava um pequeno óculos redondo com as pernas emendadas com esparadrapo. Era um homem sorridente, mas sabia ter energia nos momentos que assim exigia, tinha um pequeno pedaço de terra nos arredores de uma cidade com pouco mais de seis mil habitantes. Imigrou da Áustria para o Brasil ainda muito criança  na companhia dos pais, em ocasião da primeira grande guerra.  Trouxeram como bagagem apenas um baú marchetado de madeira maciça.

A pneumonia levou seus pais, casou-se com Eulália, a moça mais linda do povoado sulino.  Ela morreu no parto do ultimo filho. Ele ficou só e  uma renca  de 6 filhos, sendo Bernardo o recém nascido.

Francisco o mais velho nasceu em um dia de tempestade, as estradas estavam barrentas e nem cavalo passava, o pai teve que realizar o parto, os outros nasceram pelas mãos da parteira caolha Jacobina. Foram quatro filhos  e duas filhas em oito anos de casamento. Cesário criou os filhos sozinho,  com a dureza de quem planta e espera chover, passou pelos árduos anos de inflação galopante, nunca deixou que faltasse nada do necessário, muitas vezes deixou de comer para alimentar sua prole.

Nunca ficou devendo nada a ninguém.

Nunca fumou nem bebeu, não conhecia bares nem a zona do meretrício, nas suas noites quentes de solidão tomava banho frio na cacimba da gruta, local destinado a meditar e pensar.

Os filhos cresceram, estudaram, se formaram e foram embora formar suas famílias.

Cesário ficou só.

Uma lenda envolvia o velho Cesário, diziam que tinha um baú enterrado na gruta e que lá guardava toda a riqueza acumulada de uma vida toda. Muitos apostavam que no baú havia libras esterlinas de quatro gerações de parentes, outros afirmavam que eram jóias oriundas da família real austríaca e tinham os que diziam que ele havia transformado tudo em um imenso colosso de dólares.  

Os filhos cresceram no meio do convercê  do povoado, Francisco, o mais velho, foi quem primeiro se interessou pela historia do  baú, naquela época com oito anos de idade e assim por diante cada filho questionava o pai sobre o assunto,  Cesário sempre desconversava.

Um dia reuniu todo seu clã e disse: – Vou falar uma vez só e nunca mais tocarei nesse assunto, portanto lembrem bem do que vou dizer. O Baú que todos falam está na gruta, no pé da montanha triangular, em lugar seguro. Lá existe toda fortuna deixada pelos nossos antepassados, um dia ela será de vocês, a maior parte será daquele que for o melhor filho, o melhor cidadão e o melhor cristão.  

O velho apesar de morar só, nunca sentia solidão, todos da cidade o visitava, sempre com olhares para gruta.  Nas piores safras, Cesário era o único  que nunca perdia o  crédito, todos queriam lhe servir. Era convidado para festas, comemorações e inaugurações, mas nunca aparecia. Os filhos estudaram na pequena escola da vila,  depois foram  para faculdade pública da capital. Concorriam entre si para as melhores notas e os melhores empregos. Todos tiveram filho homem com o nome de Cesário. Revezavam-se  no velho sítio para que nunca o pai tivesse solidão.

Nunca esqueceram do Baú.

Cesário caiu doente em um dia de natal, teve o melhor tratamento médico da capital, tudo patrocinado pelo dinheiro dos  filhos. Ficou sem andar, as noras e genros discutiam  e queriam exclusividade para cuidar do doente em suas próprias casas. Cesário optou por ficar uma temporada na casa de cada filho para satisfazer a todos.

O melhor cômodo da casa era destinado ao avô, tratamento de cinco estrelas, remédios na hora, alimentação balanceada e a presença do  médico a cada espirro do velho.

Cesário morreu no dia de seu aniversário de noventa e seis anos, mas não antes de revelar na presença de todos os filhos, o local onde estava o baú e dizer  que todos receberiam a fortuna em partes iguais, pois todos foram bons filhos e cidadãos exemplares.

O funeral foi na vila em que sempre viveu, foi erguido um tumulo de granito branco, o mais caro que encontraram,  uma placa de bronze homenageava o  velho do baú.

A família estava reunida na gruta da montanha, o filho mais velho, com ajuda dos irmãos, empurrou a pedra grande que dava fundo a gruta, retiraram outras pedras menores até que avistaram o baú.

O baú estava envolvido por um plástico transparente amarrado pela boca com uma corda de nylon azul. Era uma caixa de madeira pesada de mais ou menos dois metros por um,  era marchetada em tonalidades negra, marfim e vermelho, os desenhos formavam situações de rotinas domésticas com personagem orientais.A tampa estava emperrada e precisariam de ferramentas para abri-la, as noras pediam para que destruíssem a tampa com auxilio de uma pedra pontiaguda,  os genros optaram por destruir todo o baú para que pudessem ver logo o conteúdo.

A filha mais velha foi quem pediu silêncio e determinou: -Levaremos o baú até a casa de meu pai e lá, vamos abri-lo com a delicadeza necessária para não estraga-lo, afinal, ele pertenceu a varias gerações.

O transporte do baú foi deixado para o outro dia, estava noite e mal enxergavam a estrada de retorno a casa.

Com baú exposto sobre a  mesa da cozinha, Francisco, com auxilio de varias chaves e outras ferramentas,  conseguiu abrir o tampo maciço. 

Todos aproximaram da mesa,  netos, genros, noras, filhas e filhos compartilhavam o acontecimento.

Foi quando Francisco observou que o baú estava completamente vazio, via apenas um pedaço de papel encardido no fundo da caixa: 

“Se o povo for conduzido apenas por meio de leis e decretos impessoais e se forem trazidos à ordem apenas por meio de punições, ele apenas procurará evitar a dor das punições, evitando a transgressão por medo da dor. Mas se ele for conduzido pela virtude e trazido à ordem pelo exemplo e pelos ritos em comum, ele terá o sentimento de pertencer a uma coletividade e o sentimento de vergonha quando agir contrário a ela e, assim, bem se comportará de livre e espontânea vontade”. – Confúncio.

Mercadoria de Luxo (por eneida marques)

Posted in artes do cotidiano, artes plásticas, comentário, texto with tags on janeiro 15, 2008 by eneidamarques

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Pois é, fico até constrangida em escrever em um blog tão chique, 

tão  preocupado com questões estéticas enquanto eu, cada vez mais,

enquanto envelheço, volto-me para o que há de essencial nas coisas –

esteja exposto ou não, seja claro ou escuro, bonito ou feio.

 

Algo sobre o que andei pensando foi o roubo – e posterior resolução,

 pela polícia – dos quadros do Masp, ainda bem! Quando aconteceu, eu

tinha acabado de ver em dvd o filme ‘ Saneamento básico’ do Jorge

Furtado( que aliás recomendo) E nesse filme somos confrontados

 com aquestão: o que é mais importante, termos produtos da cultura

ou termos sanamento básico, neste país?

 

Quando soube que os quadros  foram roubados do MASP, tive a

sensação dolorosa de que havia perdido um amigo, parente…alguém

muito querido.  Pois bem, mais  tarde, ao ser (pseudo?) informada

sobre os detalhes e circunstâncias do roubo e de como foi a sua

 resolução e, ainda, poder prever de até onde irão as prisões, achei que

algo assim só poderia acontecer aqui mesmo. Assim como aquela tela

do trabalhador só poderia ser do Portinari e o fato de o próprio Masp

 ser o filho dileto do Chateaubriand e ter sido erigido sobre os despojos

 de uma guerra…Uma coisa está visceralmente ligada à outra: nós só

  temos os produtos culturais que temos porque temos o esgoto que

temos….Fico com pena dos ladrões que agora estão presos: como o

 lavrador de café, foram apenas instrumento para que alguns poucos

possam fruir de uma arte cada vez mais “privada”, objeto de ecoração,

 mercadoria  de luxo.